Crime sem remédio: venda de medicamentos leva 3 à prisão
Só no Espírito Santo, foram apreendidos 161 mil comprimidos, 7 vezes mais do que a quantidade do Brasil
O comércio ilegal de medicamentos controlados pela internet levou três pessoas para a cadeia, na quarta-feira, em Vila Velha. As prisões aconteceram durante a Operação Panaceia, da Polícia Federal. Com os acusados, foram encontrados 161 mil comprimidos - 7 vezes mais do que o total apreendido em outros sete estados brasileiros juntos (22.533 unidades).
A quantidade de remédios apreendida no Estado também teve destaque mundialmente. O total representa 15,87% de todo o montante apreendido na mesma operação em 45 países (1.014.043 comprimidos) - entre eles Canadá, Estados Unidos e Israel.
Um representante comercial de 41 anos e sua companheira, 46, estavam saindo de um escritório em Cocal, Vila Velha, quando foram abordados pelos policiais. Eles levavam parte dos remédios embalada em 25 caixas de Sedex, para enviarem aos compradores de diversas partes do país. A polícia não sabe, no entanto, se eles também vendiam o material para fora do Brasil.
O outro detido, um corretor de imóveis, de 43 anos, foi preso em frente a sua casa, em Vila Nova, também em Vila Velha.
Esquema
De acordo com o coordenador da operação no Espírito Santo, delegado Marcos Paulo Pugnal da Silva, o trio era investigado há menos de um mês. "Eles criaram um site onde anunciavam os medicamentos controlados. Mas não colocavam os nomes deles, e sim os mascaravam com um código, chamando-os de hidratantes", explicou.
Os criminosos, então, postavam em fóruns e até mesmo no Mercado Livre a lista dos medicamentos correspondentes a cada código. Depois de fazer o depósito, todo o material - anorexígenos e psicotrópicos, como a sibutramina, o diazepan e o prozac - era enviado por Sedex.
Os 161 mil comprimidos apreendidos no Estado chamou a atenção até mesmo da polícia. "Realmente ficamos surpresos. Mas essa é a primeira parte da investigação. Como os remédios são verdadeiros, acreditamos que tenha havido um desvio dessa medicação de alguma farmácia", ressaltou o delegado.
Os detidos foram indiciados por tráfico de drogas. Há possibilidade de que eles tenham relação com outras cinco pessoas que foram presas no país, durante a Operação Panaceia.
Os nomes dos detidos não foram divulgados pela Polícia Federal.
Quem compra também pode ser indiciado
As pessoas que forem flagradas comprando medicamentos controlados pela internet, de forma ilegal, também podem ser indiciadas como usuárias de droga, e responder a um processo por isso. De acordo com o delegado Marcos Paulo Pugnal, a Polícia Federal, inclusive, está tentando rastrear os compradores dos remédios vendidos pelos três detidos no Estado. "Essas pessoas sabem que o que estão fazendo é ilegal, porque não têm receita médica. Estamos vendo se é possível identificá-las para que sejam punidas".
Internet é canal fácil para comercialização
Comprar remédios sem receita é uma prática relativamente comum na internet, tanto em sites do Brasil quanto no de outros países. Existem, hoje, muitos sites que vendem medicamentos controlados - por um preço superior que o das farmácias. Durante a Operação Panaceia, no resto do Brasil, foram presas cinco pessoas por conta da venda ilegal de medicamentos pela internet (uma em São Paulo, uma em Juiz de Fora-MG, uma em Divinópolis-MG, uma em São Luís-MA, e uma em Florianópolis).
Esquema ilegal
Site
Os criminosos criaram um site na internet para disponibilizar uma lista (imagem ao lado) com os códigos dos "hidratantes" (nome utilizado pelos detidos para se referirem aos remédios controlados) e o preço. Cada um deles correspondia a um dos medicamentos. O código DIA 10, por exemplo, era referente ao Diazepan
Fóruns.
O representante postava em fóruns na internet e até mesmo no Mercado Livre a lista do produto que correspondia a cada código. Assim o cliente identificava o remédio e fazia o pedido
Lista.
O hidratante A 100 era usado para anfepramona; a SB 15, para sibutramina; a F 25, para Desobesi; a NAVO2, para Rivotril; a FL 20, para fluoxetina; a F Plus, para femproporex
Pagamento.
O comprador escolhia se depositava o dinheiro em uma conta corrente ou se pagava com cartão de crédito. O produto era enviado por Sedex
Valores.
Os medicamentos chegavam a custar o dobro do preço dos vendidos nas farmácias. A caixa de sibutramina, por exemplo, é vendida por R$ 30, em média, nas farmácias. Ela custava R$ 65 no site. O valor, inclusive, poderia ser parcelado em até 10 vezes
Material apreendido.
Além dos 161 mil comprimidos, a polícia apreendeu 3 carros, caixas e talões de preenchimento de Sedex. Parte do material estava no escritório do representante comercial, em Vila Velha
Operação Panaceia.
A ação foi realizada em mais sete Estados: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Ceará
Trio detido faturava mais de R$ 1 milhão por ano
O faturamento anual do casal detido na quarta-feira, em Cocal, Vila Velha, por vender, de forma ilegal, medicamentos controlados pela internet, pode passar de R$ 1 milhão, de acordo com a Polícia Federal.
O montante foi levantado depois que a polícia apreendeu os 161 mil comprimidos com a dupla e outro homem. Só de sibutramina - moderador de apetite - foram apreendidas
2,5 mil caixas. "Se contarmos que eles vendiam cada uma delas por R$ 65, o dobro do custo em uma farmácia, já dá para ver que eles tinham um faturamento alto. Fora os outros medicamentos", destacou o coordenador da operação do Espírito Santo, delegado Marcos Paulo Pugnal da Silva.
Pugnal acredita, ainda, que o grupo tinha fiéis compradores. "Pelo volume grande de remédios que foram encontrados com eles, não devem ser poucos os compradores. É possível, também, que haja mais pessoas envolvidas nesse negócio", disse.
O representante comercial, de 41 anos, disse que trabalhava com a venda de remédios na internet há seis meses, mas a polícia tem notícias de que ele fazia isso há três anos. O homem, inclusive, já teve passagem na polícia por uso de documento falso.
Medicamentos podem causar dependência
Consumir remédios controlados sem a orientação médica pode ser muito arriscado para a saúde. O alerta é feito pelos próprios especialistas, que ressaltam os indesejados efeitos colaterais como principal ponto de observação dos pacientes.
O clínico-geral Eurico de Aguiar Schmidt explica que todos esses medicamentos controlados causam dependência química. "Justamente por isso é que são vendidos somente com receita. Quando uma pessoa passa por cima do médico e vende um medicamento desses, ela deixa o comprador viciado. Bom para ela, que vende mais. Ruim para quem compra", disse.
Schmidt alerta, principalmente, para o fato de que cada organismo reage de uma forma a cada um dos medicamentos. Dependendo dos antecedentes e das doenças que a pessoa possa ter, o uso indiscriminado de remédios controlados sem que o médico avalie a condição do paciente pode até levá-lo à morte. "Além de tonteiras e alergias, esses medicamentos podem alterar os batimentos cardíacos e a pressão. Isso pode ser muito perigoso", destaca.
Sibutramina
75 mil comprimidos - Essa foi a quantidade de comprimidos de sibutramina apreendida pela Polícia Federal com os três detidos. Eles estavam em 2,5 mil caixas do produto, que eram vendidas a R$ 60, cada uma.
Prejuízo
2,5 milhões de dólares - Esse é o prejuízo estimado anualmente, em todo o mundo, com a venda ilegal de medicamentos na internet. No Estado, os três detidos chegavam a ter um faturamento de R$ 1 milhão.
